Descobri o que tem na bagagem da mãe

17:55


A dona de um dos melhores blogs do mundo materno divide suas histórias com o Diploma de Mãe

Café da manhã para a mamãe. Foto: Arquivo Pessoal

“Tenha paciência!”, esse seria o conselho que a Loreta Berezutch (33) de hoje daria para ela mesma no passado, quando ainda não era mãe. Apressadinha em tudo, como ela costuma se descrever, foi a primeira a casar, se formar e a ter filhos, entre o grupinho de amigas. Por ter sido a precursora do grupo, volta e meia era perguntada pelas amigas sobre suas experiências. 

Em 2010, após a transferência do marido para Recife, Loreta precisou encontrar meios de manter os amigos e a família de São Paulo informados sobre o dia a dia dos seus filhos Pedro, com dois anos na época, e Catarina, que nasceu no mesmo ano.  Em princípio, a melhor opção foi o e-mail, mas os relatos sempre ficavam enormes e muitas vezes ela precisava contar as histórias para mais de uma pessoa. Foi aí que uma amiga deu a ideia para Loreta fazer um blog e organizar os textos por temas. Nenhuma das duas ainda sabia, mas um dos melhores blogs sobre maternidade no Brasil acabava de nascer.

Loreta Berezutch Foto: Arquivo Pessoal
“No começo eu recusei a ideia, não sabia direito como funcionava um blog e morria de vergonha de pensar em pessoas que eu não conhecia lendo o que eu escrevia. Daí, criei a página em formato privado”, explica Loreta. Mas não demorou muito para que a publicitária desse fim à restrição e tornasse o blog público, já que volta e meia alguém perdia a senha ou o site travava. “Eu achava que ninguém se interessaria. Até que percebi que outras pessoas estavam lendo porque recebia comentários e não lembrava quem seriam aquelas ‘amigas’”, lembra.

No Bagagem de Mãe, nome escolhido para o blog, além da rotina da família, Loreta compartilhava dicas para o cuidado das crianças, da casa e tudo que aprendia no agitado universo materno. Em pouco tempo, o texto leve foi atraindo mais leitores até que, em 2013, o blog começou a fazer parte do famoso portal Bebê.com, da editora Abril. A blogueira trabalhou também como colunista em outros grandes sites sobre o tema, como PegPerego, FisherPrice, Nestlé, Nexcare e TuttyBaby.

O modelo de trabalho nos sites, no estilo home office, possibilitou Loreta estar perto dos filhos sem ter que abrir mão de sua carreira, mas engana-se quem pensa que é fácil conciliar. Mesmo estando de volta a São Paulo, próximo dos familiares, o desafio é grande. “Ser mãe e profissional é possível, mas não é tão simples. Para uma mulher conseguir seguir em frente com sua carreira e ainda ser mãe, ela precisará enfrentar o julgamento da sociedade, buscar apoio de empresas que respeitem e pensem diferente e, acima de tudo, lidar com os próprios medos e culpas”, pontua.

Outro desafio é a disciplina que o home office exige. Nem todo mundo se adapta bem ao modelo de trabalho em casa. Para encarar a dupla jornada, sem se perder nas diferentes tarefas, a blogueira acredita que a organização e o apoio da família são imprescindíveis. “Ter um canto específico de trabalho em casa me ajuda a não perder o foco. Eu tenho um escritório e as crianças sabem que quando estou sentada lá, estou trabalhando e, assim, consigo terminar as coisas sem muito estresse”.

Loreta explica que esse processo foi gradual: “Não foi de um dia pro outro que consegui essa organização. Aos poucos, cada mãe vai sentindo o que funciona melhor com seus filhos e sua família. O importante é que você consiga fazer as tarefas que precisa com as crianças e com o trabalho sem se sentir culpada ou devendo em nenhum dos lados”.


O trio: Loreta, Pedro e Catarina. Foto: Arquivo Pessoal


Vida real

Mesmo com a rotina materna e profissional mais equilibrada, Loreta é gente como a gente e conta que, assim como para a maioria das mães, o sentimento de culpa volta e meia aparece. Todas as decisões que eu tomo são pensadas e repensadas mil vezes. Estou sempre criando cenários hipotéticos das reações que podem vir a ocorrer dependendo das minhas ações agora. Se fico mais tempo do que deveria trabalhando, me sinto culpada. Se não consigo cumprir uma promessa que fiz às crianças (como buscar na escola, ou sair pra tomar um sorvete), me sinto culpada”, confessa.

Para driblar a culpa, a blogueira conta que desenvolveu exercício mental que ela batizou de Estrelinha da Boa Mãe e explica: “É você parar para pensar em tudo o que fez no dia e perceber como é uma boa mãe, como você foi bacana batendo aquele papo à toa com as crianças, fazendo aquele almoço gostoso, dando aquele abraço na porta da escola e assim por diante. Porque, por mais que as culpas nos assombrem, nós somos boas mães todos os dias nestes pequenos gestos do cotidiano.

Além das próprias neuras e culpas, quem trabalha com blog e, consequente, expõe a vida e rotina na rede, está sujeito aos julgamentos externos, muitas vezes cruéis. Loreta conta que no início sofreu bastante com julgamentos e comentários ruins de quem a internet chama de “haters”. “Hoje, antes de postar alguma coisa, eu leio, releio, penso, observo de todos os pontos de vista possíveis para mim e depois posto. Se vierem comentários negativos eu não ligo, porque estou segura daquela opinião, daquele texto, da minha intenção com ele”.

Multimulher

Muitas mulheres vivem crises ao absorverem tantas novas atribuições na vida. Ser mãe, esposa e profissional é mesmo desafiador e isso pode acabar virando uma grande frustração se essas mudanças não forem administradas. Não foi muito diferente com a Loreta. A publicitária conta que sofreu muito achando que estava se negligenciando como mulher, já que não sobrava tempo para alguns cuidados só para ela. Aprendi que um foco de frustração muito grande das mães é ficar sempre agarrada a sua identidade antes de ter filhos. Ao se tornar mãe, você não é mais a mesma pessoa, as suas prioridades, sonhos e desejos mudam e isso é bom. Toda mudança é positiva, a gente só leva um tempo para se reconhecer nesta nova pessoa que nos tornamos.” A blogueira destaca ainda que, nesse momento, o segredo é ter paciência com o processo de aprendizado, respeitando o seu próprio tempo e do bebê.

Como resultado desse aprendizado, hoje a mãe do Pedro e da Catarina consegue lidar melhor com o conflito de interesses entre a Loreta mãe X a Loreta mulher. “Agora eu sei que existem coisas de antes que não cabem na minha vida agora e, com esta consciência, aprendi a organizar meu tempo de uma maneira que caiba o que eu quiser fazer só para mim”.

E não foi só isso que a maternidade ensinou, ao olhar para trás e perceber que venceu alguns medos em relação aos cuidados com os filhos, Loreta comemora: “Eu achava que não levava o menor jeito para ser mãe. Tinha certeza que afogaria meu bebê na banheira, porque eu sou muito desastrada”.  Por nunca ter se considerado o tipo de tia brincalhona, a publicitária tinha medo de como seria esse dia a dia com as crianças. Com o passar do tempo, Loreta descobriu que a maternidade acontece e que, no fundo, toda mãe sabe ser mãe. “Basta confiar em si mesma”, conclui.

Antes de ser mãe, é comum a mulher se cercar de informações sobre amamentação, criação e cuidado com as crianças. Surge um modelo idealizado de mãe para todas as fases do bebê. “Ser mãe é tomar várias cuspidas na testa por dia”, brinca Loreta. “Quando engravidei do Pedro, criei um monte de ‘regras’ na minha cabeça sobre como eu seria como mãe: não deixaria dormir na minha cama, não daria mamadeira ou chupeta, não deixaria meus filhos darem chilique na rua, não faria as vontades deles à toa”.

A mamãe blogueira abriu mão de muitas teorias após a maternidade, mas o que ela considera primordial, até hoje, é o diálogo com os filhos, desde que eles eram bebês. “Eu tô sempre conversando com eles, acho que como eu não sabia fazer de outro jeito, isso aconteceu instintivamente. Quando era dia de vacina, eu explicava o que ia acontecer, dizia que era uma picadinha, que doía e que eu estava triste de vê-los sofrer, mas que era só um minutinho e eu estaria sempre do lado”. Conforme Pedro e Catarina cresciam, Loreta conta que a conversa virou hábito e hoje não se imagina fazendo de outro jeito.


Catarina (7 ), Pedro (9) e a Loreta. Foto: Arquivo Pessoal

Beleza e auto estima

Embora não se considere vaidosa, as fotos dos looks de Loreta com os filhos fazem sucesso no seu instagram @bagagemdemae. O dia a dia e estilo da mamãe e dos pequenos fizeram com que o perfil chegasse à marca de 21 mil seguidores. Quem vê as poses cheias de charme do trio, não imagina que nem sempre foi assim. Antes de engravidar, Loreta teve dois abortos espontâneos e, para gerar novamente, precisou fazer um tratamento hormonal que fez com que ela engordasse 10 kg. Ao engravidar, engordou mais e quando Pedro tinha um pouco mais de um ano, Loreta se viu grávida novamente. “Eu não imaginava que poderia engravidar de novo e, pra mim, só teria um filho, porque eu não queria passar por todo o processo de tratamento novamente”, desabafa.

Com dois bebês em casa, a publicitária, que sempre foi magrinha, conta que não se reconhecia no espelho. Loreta evitava sair de casa, usar regata, shorts e até de encontrar com os amigos que sempre comentavam o quanto ela estava “diferente”.  “Isso tudo me deixava muito triste. Até que um dia perguntei para mim mesma como poderia falar com os meus filhos sobre saúde e amor próprio se eu estava me boicotando desse jeito?”. Após um ano, a mamãe conseguiu retornar ao peso que tinha antes de engravidar e está feliz com quem é. Como toda mulher, diz que poderia perder um quilinho pelo menos, mas garante que não é mais nada que lhe tire o sono.

Sobre o agora

Hoje, Loreta se considera uma mulher realizada por conseguir trabalhar com o que ama e da forma que gostaria e por ter um casamento baseado em amor e respeito. E, claro, filhos lindos e boas pessoas, como ela mesma classifica. “Me sinto realizada porque estou vivendo uma fase de tranquilidade, sem grandes expectativas, sem grandes frustrações, sendo feliz com o que tenho”. Talvez, seja isso o que de mais valioso a Loreta tem carregado na bagagem de mãe.








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